Por que os franceses dizem “na semana das quatro quintas-feiras” para falar de algo que nunca vai acontecer? E por que “quebrar o cachimbo” quer dizer morrer? Veja a origem de 24 expressões francesas muito usadas, com o significado e o equivalente em português. Quando a origem é incerta, isso está dito: para várias delas, há mais de uma explicação.

À la Saint-Glinglin

À la Saint-Glinglin
No dia de São Nunca

Quer dizer numa data indeterminada e distante, ou nunca. Não existe nenhum São Glinglin: segundo o dicionário histórico Robert, a expressão, registrada em 1897, viria provavelmente de seing (sinal, do latim signum, que no latim tardio era o toque de sino) e de glinguer (soar, do alemão klingen). Com o tempo, seing foi confundido com saint (santo).

La semaine des quatre jeudis

À la semaine des quatre jeudis
Na semana dos nove dias, no dia de São Nunca

Uma semana com quatro quintas-feiras não existe, por isso a expressão quer dizer “nunca”. A ideia é antiga: no século XV, o poeta Guillaume Coquillart já fala de uma “semana com duas quintas-feiras” (1491), e Rabelais, em Pantagruel (1532), de uma “semana de três quintas-feiras”. A forma com quatro aparece em 1867. Entre 1882 e 1972, a quinta-feira era dia de folga dos alunos nas escolas francesas, o que deu um sabor a mais à expressão: uma semana com quatro quintas seria o sonho de qualquer estudante.

Entre chien et loup

Entre chien et loup
Ao lusco-fusco, ao anoitecer

É a hora do crepúsculo, quando já não se distinguem bem as coisas. A expressão já existia em latim no século VII (inter canem et lupum). A explicação mais comum é que, nessa luz, não se consegue distinguir um cão de um lobo. Outra explicação fala dos pastores: é o momento entre a hora em que o cão é posto de guarda e a hora em que o lobo sai do bosque para rondar o rebanho.

Coup de foudre

Avoir le coup de foudre
Ter um amor à primeira vista

Hoje, coup de foudre é a paixão súbita. Mas no século XVII o “golpe de raio” era outra coisa: o dicionário de Furetière (1690) o define como as aflições imprevistas que atravessam o coração. O sentido amoroso só aparece no fim do século XVIII: o dicionário da Academia Francesa de 1798 já registra o coup de foudre como “o nascimento súbito de um amor violento”.

Casser sa pipe

Casser sa pipe
Bater as botas

Literalmente “quebrar o cachimbo”, é um jeito brincalhão de dizer “morrer”. A expressão aparece já no século XVII, mas com outro sentido: “ficar com raiva”. Ninguém sabe ao certo como ela passou a significar “morrer”. Conta-se que, nas guerras napoleônicas, os soldados mordiam um cachimbo de barro durante as amputações sem anestesia, e que o cachimbo caía e quebrava se o soldado morresse; é uma explicação popular, sem comprovação. O linguista Albert Dauzat sugeriu outra: pipe teria aqui o sentido de “tubo”, e o tubo quebrado seria a traqueia.

Avoir d’autres chats à fouetter

Avoir d’autres chats à fouetter
Ter mais o que fazer

Literalmente “ter outros gatos para chicotear”: ter coisas mais importantes com que se ocupar. A combinação de chat e fouetter já existia no século XVII, em il n’y a pas de quoi fouetter un chat (“não há motivo para chicotear um gato”, ou seja, “não é nada grave”), e foi dela que saiu a forma atual, registrada no século XIX. O lexicógrafo Alain Rey e Sophie Chantreau propõem uma leitura mais picante: fouetter seria uma deformação de foutre, verbo vulgar para o ato sexual, e chat teria o sentido de vulva, que a palavra tinha pelo menos no século XVIII.

Finir en queue de poisson

Finir en queue de poisson
Terminar de forma decepcionante

Diz-se de algo que termina de repente e de forma decepcionante em relação ao começo. A imagem vem do poeta latino Horácio, na Arte poética: desinit in piscem mulier formosa superne, “uma bela mulher em cima termina em peixe embaixo”, como uma sereia. Algo que começa bem e acaba mal.

Voilà le hic!

Voilà le hic!
Aí é que está o problema!

Le hic é o nó, a principal dificuldade de um assunto. A palavra, registrada em 1690, vem do latim hic (aqui), que os juristas escreviam na margem dos documentos para chamar a atenção para um ponto importante. Outra explicação, dada pelo dicionário Littré, liga a palavra à frase latina hic est quaestio, “aqui está a questão”.

Un harpagon

Il est avare comme Harpagon
Ele é um pão-duro

Harpagon é o personagem principal de O avarento, de Molière, cuja característica mais marcante é a avareza. O nome virou substantivo comum: un harpagon é uma pessoa avarenta. Molière tirou o nome do latim harpago (gancho, arpão), ligado ao grego harpagê (avidez, rapacidade).

Comme un chien dans un jeu de quilles

Recevoir quelqu’un comme un chien dans un jeu de quilles
Receber alguém com quatro pedras na mão

Literalmente “como um cachorro num jogo de boliche”: de modo inoportuno, sem ser desejado. A imagem é a de um cão agitado que entra correndo no meio dos pinos e derruba tudo; ninguém fica feliz em vê-lo.

L’assiette au beurre

L’assiette au beurre
A galinha dos ovos de ouro, uma mamata

“O prato de manteiga” é uma fonte de dinheiro farto, mais ou menos legal, que atrai a cobiça, como um cargo lucrativo. A expressão seria do século XV e se referiria à manteiga, um luxo para os pobres, e aos desvios dos cobradores de impostos. Ela tinha caído em desuso e voltou à moda com o jornal satírico L’Assiette au beurre (1901-1936).

Avaler des poires d’angoisse

Avaler des poires d’angoisse
Passar por grandes desgostos

Literalmente “engolir peras de angústia”: sofrer grandes desgostos e humilhações. A poire d’angoisse não é uma fruta: era um instrumento de ferro em forma de pera, que os ladrões enfiavam à força na boca das vítimas para impedi-las de gritar.

De quel bois je me chauffe

Je vais lui montrer de quel bois je me chauffe!
Vou mostrar a ele com quem está lidando!

Literalmente “com que lenha eu me aqueço”: do que uma pessoa é capaz. No início, a expressão queria dizer conhecer a natureza ou o caráter de alguém; depois passou a ter o tom de ameaça que tem hoje.

Être comme cul et chemise

Ils sont comme cul et chemise
Eles são unha e carne

Literalmente “ser como bunda e camisa”: ser inseparáveis. A explicação é física: a parte de trás da camisa fica sempre junto do traseiro. A expressão é bem familiar.

Aboyer à la lune

Aboyer à la lune
Falar com as paredes

Literalmente “latir para a lua”: gritar inutilmente contra alguém, protestar sem nenhum resultado. A imagem é a do cão que late à noite para a lua, que continua lá, indiferente.

À vil prix

Vendre à vil prix
Vender a preço de banana

Quer dizer a um preço muito baixo. É uma expressão um pouco antiga. O adjetivo vil vem do latim vilis, “barato, de pouco valor”, e o sentido original de “barato” sobreviveu nessa locução, enquanto vil sozinho hoje quer dizer “desprezível”.

S’accrocher au cocotier

S’accrocher au cocotier
Dar murro em ponta de faca

Literalmente “agarrar-se ao coqueiro”: insistir teimosamente numa situação sem futuro. A origem é desconhecida. Circula a história de um suposto costume polinésio, em que os idosos tinham de subir num coqueiro sacudido pelos jovens, mas não encontramos nenhum registro que a confirme.

Là où le roi va seul

Aller là où le roi va seul
Ir ao trono

Literalmente “ir lá aonde o rei vai sozinho”: um jeito brincalhão de dizer “ir ao banheiro”. O rei andava sempre acompanhado, menos nesse lugar. A expressão brinca com o sentido familiar de trône (trono) como vaso sanitário, o mesmo do “ir ao trono” em português. Em occitano, a variante é “aonde o rei vai a pé”.

Du temps que Berthe filait

Du temps que la reine Berthe filait
No tempo do Onça

“Do tempo em que a rainha Berta fiava”: nos bons velhos tempos, há muito tempo. Não se sabe ao certo quem é essa Berta. Na região de Vaud, na Suíça, a lenda de uma rainha fiandeira se ligou a Berta da Borgonha, rainha no século X, e se espalhou no século XIX; mas ela retoma um ditado do norte da Itália, do fim da Idade Média, que falava de outra Berta, a mulher do imperador Henrique IV. O poeta provençal Frédéric Mistral liga o ditado a uma terceira Berta, mulher de Bosão, conde de Arles.

O “Onça” da expressão brasileira tem dono: Luís Vaía Monteiro, governador da capitania do Rio de Janeiro de 1725 a 1732, ganhou o apelido pelo temperamento violento, e “do tempo do Onça” passou a querer dizer “fora de moda, antigo”.

Avoir de la bouillie dans la bouche

Avoir de la bouillie dans la bouche
Falar com uma batata quente na boca

Literalmente “ter mingau na boca”: falar de modo confuso, enrolado, difícil de entender. Em francês, bouillie (mingau, papa) também é usada sozinha para uma fala confusa e mal articulada.

Engueuler comme du poisson pourri

Engueuler quelqu’un comme du poisson pourri
Dizer cobras e lagartos a alguém

Literalmente “xingar alguém como peixe podre”: dar uma bronca muito forte, tratar alguém aos berros. É uma expressão popular; a imagem é a de alguém tratado como coisa estragada, que só merece desprezo.

Et des poussières

Ça coûte cent euros et des poussières
Custa cem euros e uns quebrados

Literalmente “e umas poeiras”: depois de um número, indica que o valor foi arredondado para baixo e que há um pouco a mais. As poeiras são a quantia pequena demais para contar. Também se diz et des brouettes (e uns carrinhos de mão), no mesmo sentido.

Haut de gamme

Un produit haut de gamme
Um produto de primeira linha

Literalmente “alto da gama”: os produtos de melhor qualidade, e em geral os mais caros, de uma mesma categoria. Vem do vocabulário do marketing, e o contrário é bas de gamme.

Zélé comme une abeille

Zélé comme une abeille
Trabalhador como uma formiga

“Dedicado como uma abelha”: muito esforçado e aplicado. Zélé é quem tem zèle (zelo), e a abelha é a imagem clássica do trabalho incansável. Em português, quem faz esse papel costuma ser a formiga.

A lista completa, com mais de cem expressões e seus equivalentes em português, está em Expressões idiomáticas da língua francesa.


Fontes: Wiktionnaire (à la Saint-Glinglin), Wiktionnaire (semaine des quatre jeudis), Wiktionnaire (entre chien et loup), Wiktionnaire (coup de foudre), Wiktionnaire (casser sa pipe), Wiktionnaire (avoir d’autres chats à fouetter), Wiktionnaire (finir en queue de poisson), Wiktionnaire (hic), Wiktionnaire (harpagon), Wiktionnaire (comme un chien dans un jeu de quilles), Wiktionnaire (assiette au beurre), Wiktionnaire (poire d’angoisse), Wiktionnaire (de quel bois on se chauffe), Wiktionnaire (être comme cul et chemise), Wiktionnaire (aboyer à la lune), Wiktionnaire (vil), Wiktionnaire (là où le roi va seul), Wiktionnaire (filer), Wiktionnaire (bouillie), Wiktionnaire (engueuler comme du poisson pourri), Wiktionnaire (et des poussières), Wiktionnaire (haut de gamme), Wiktionnaire (zélé), Wikipédia (Berthe de Souabe), Wikipédia (Reine Pédauque) e Wikipédia (Luís Vaía Monteiro)

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