Aprender idiomas protege idosos do Alzheimer

Aprender idiomas protege idosos do Alzheimer

Falar dois idiomas protege idosos do Alzheimer e de outras demências, mostra estudo canadense. Segundo os cientistas, ao executar tarefas corriqueiras, os bilíngues poupam áreas do órgão mais vulneráveis na velhice

Cérebro fluente

José Saramago dizia que as pessoas usam o cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso. Fugir dessa acomodação descrita pelo escritor português pode prevenir uma das complicações mais frequentes do envelhecimento: a demência. Uma equipe canadense constatou que falar mais de uma língua envolve uma atividade neural que protege o cérebro do Alzheimer e de outras disfunções cognitivas. Detalhes do estudo foram divulgados no Journal of Neurolinguistics.

Liderados por Ana Inés Ansaldo, do Centro de Pesquisas do Instituto Universitário de Geriatria de Montreal, os cientistas compararam o cérebro de idosos bilíngues e o dos que falavam apenas um idioma.

O objetivo inicial era entender divergência de estudos anteriores quanto a uma possível melhora cognitiva em pessoas com a habilidade. “Decidimos olhar para o que o cérebro estava fazendo, e não apenas para o desempenho das tarefas, a fim de observar se essa aparente divergência nos resultados comportamentais poderia ser entendida”, conta Ansaldo.

“O estímulo da capacidade cognitiva é tão importante quanto o desenvolvimento e o treino da capacidade física, mas damos menos importância a ele”

Participaram do experimento dois grupos de idosos — um monolíngue e outro bilíngue —, que tinham a tarefa de se concentrar na informação visual de um objeto, a cor dele, e ignorar a espacial, em que posição estava, enquanto o cérebro era escaneado. Ao comparar os resultados, os pesquisadores não detectaram diferenças nos tempos de resposta e nas taxas de erro, mas, analisando o funcionamento cerebral dos voluntários, encontraram características distintas.

“Para executar a tarefa, os monolíngues tiveram que recrutar muito mais áreas do cérebro do que os bilíngues. Eles ativaram redes cerebrais complexas, envolvendo regiões de processamento frontal, visual, motor e espacial, enquanto os bilíngues recrutaram um circuito pequeno e altamente especializado. Seu cérebro, portanto, é mais eficiente na hora de resolver o teste”, detalha a pesquisadora.

Segundo os investigadores, a área ativada pelo cérebro do idoso monolíngue aloca um número de regiões ligadas às funções visual e motora e ao controle de interferência (vinculada à tomada de decisões), que estão localizados no lobo frontal. Dessa forma, recruta várias regiões cerebrais para a execução da tarefa. Já os bilíngues alcançam o mesmo resultado sem usar as áreas frontais.

Ansaldo explica que essa simplicidade do mecanismo cerebral dos bilíngues faz bem ao órgão. “O fato de eles não recrutarem áreas frontais é uma vantagem, já que elas são muito vulneráveis ao envelhecimento e também comprometidas em casos de demência. Isso também pode explicar por que trabalhos anteriores mostram que pessoas que sabem dois idiomas mostram um atraso no aparecimento de sinais de demência em comparação com as monolíngues”, detalha.

Imagem de Free-Photos por Pixabay

Poupança cognitiva

Otávio Nóbrega, diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, diz que o estudo canadense acompanha outras linhas de pesquisa na área. “O estímulo da capacidade cognitiva é tão importante quanto o desenvolvimento e o treino da capacidade física, mas damos menos importância a ele. O envelhecimento é reflexo de poupanças que fazemos ao longo da vida. Se você guardar, lá na frente, poderá usar”, destaca o especialista, que não participou do estudo.

Embora o trabalho tenha uma abordagem preventiva, Nóbrega acredita que aprender um idioma ou outra atividade que treino o cérebro também pode beneficiar aqueles que estão próximos da terceira idade ou nela. “Mesmo nessa etapa, as pessoas que encaram esse desafio vão conseguir resultados. O cérebro se beneficia quando enfrenta objetivos constantemente, mas eles precisam ser desafiadores. As palavras-cruzadas, por exemplo, trazem ganhos, mas, com o tempo, fica algo mecênico. Por isso, é importante diversificar”, justifica.

“Outra coisa importante de um novo idioma é que ele pode proporcionar a chance de uma viagem, o que também gera bem-estar e satisfação”

História viva

A mente de Margot Rother, 81 anos, e a de seu marido, Hary Pries, 86, não têm fronteiras quando falam alemão. A língua, herdada dos antepassados, faz parte do dia a dia do casal. E eles têm orgulho disso. “Passei muito tempo sem visitar a Alemanha, mas procuramos conversar em alemão. Como sempre treinamos, não esquecemos. Como diz o ditado, a língua mãe nunca se perde. Acredito que manter esse conhecimento é bom porque pode nos ajudar durante a vida”, diz Hary.

O pai de Margot chegou ao Brasil aos 18 anos e construiu a família no Sul. “Morávamos em Joinville, em Santa Catarina, e todos falávamos alemão, principalmente porque eu trabalhava no comércio e para vender, precisava do idioma. Sempre éramos questionados primeiro em alemão. Até levávamos brinca dos mais velhos se eles nos pegassem tentando fazer alguma venda em português”, lembra.

Eles se conheceram em Joinville e se mudaram para Brasília por causa do trabalho de Hary, que era militar. O alemão veio novamente na bagagem. Ficou tão presente que os filhos do casal aprenderam o idioma, mas como não praticam, não lembram mais. Hary e Margot também mantêm vivo o idioma lendo cartas dos parentes que vivem na Alemanha. “Recebo notícias de uma tia. Ela tem 90 anos e sempre me enviou cartas. Não sou tão boa com a leitura, mas acredito que ela me ajuda a relembrar sempre o idioma”, conta Margot.

Para ela, aprender e praticar um novo idioma deveria ser um desafio durante toda a vida. “Quem tem condições não deve perder a oportunidade, não só pela chegada da idade, mas pela saúde. Alguns dias estamos dispostos e outros não, mas tentamos manter a língua. É tão importante para nós hoje como quando eu trabalhava no comércio”, ensina Margot.

47, 5 milhões – Quantidade de pessoas que têm demência, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). A cada ano, 7,7 milhões de novos casos são diagnosticados no mundo. 60% a 70% dos casos de demência são Alzheimer.

Idoso lendo em uma cafeteria
Imagem de Free-Photos por Pixabay

Linha ativa de pesquisa

As vantagens geradas ao cérebro quando se aprende um idioma foram constatadas em outros trabalhos científicos. Thomas Bak, neurocientista e pesquisador da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, é um dos especialistas interessados pelo tema. “Temos estudos que analisaram populações de cidades compostas principalmente por imigrantes europeus que, como costume, conheciam duas línguas. Esses benefícios também foram detectados em quase toda a população, independentemente de fatores como estilo de vida e nutrição”, conta.

Segunda Bak, na Índia, cuja maioria da população fala mais de um idioma, e, curiosamente, tem níveis baixos de instrução formal, os ganhos para o cérebro também são constatados por investigadores. “Isso ressalta como só o fato de aprender uma língua pode trazer tantas vantagens”, avalia.

Há também constatações de que bilíngues vítimas de acidentes vascular cerebral, o popular derrame, apresentam melhora mais rápida durante a recuperação. “Quero estudar como pessoas que sofreram problemas neurológicos, como as sequelas de um AVC ou que estão em uma estágio inicial do Alzheimer podem se beneficiar com o aprendizado de uma segunda língua, com esse conhecimento usado como parte do tratamento”, adianta.

Estudos mostram que pessoas que aprenderam mais de um idioma se recuperam mais rápido de um derrame

Já os integrantes da recente pesquisa canadense pretendem decifrar mais mecanismos cerebrais envolvidos no aprendizado de idiomas. “Observamos que o bilinguismo tem um impacto concreto na função cerebral e que isso pode ser positivo no envelhecimento cognitivo. Agora, precisamos estudar como essa função se traduz no cotidiano. Por exemplo, ao se concentrar em uma fonte de informação em vez de outra, algo que temos que fazer todos os dias”, conta Ana Inés Ansaldo, líder do estudo.

Para Otávio Nóbrega, diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, as pesquisas sobre envelhecimento, são mais que necessárias e bem-vindas, já que pouco se sabe sobre o tema, o que dificulta tratamentos médicos e estratégias de prevenção. “A longevidade extrema é um fenômeno novo, por isso, muitos desafios têm surgido. Hoje, temos pacientes com Alzheimer que vivem mais de 30 anos após o diagnóstico da doença. É necessário saber as melhores formas de lida com essas enfermidade”, justifica.

Imagem de Junior Peres Junior por Pixabay

Indicação sem restrições

Ainda não sabemos todas as causas do Alzheimer, mas sabemos que algumas medidas podem diminuir as chances de que esse problema de saúde ocorra, como a prática de exercício físico, que faz com que o fluxo sanguíneo seja mantido, retardando o aparecimento da doença, e a de atividade intelectual, como aprender um idioma.

Uma das constatações é que essa enfermidade tem causa genética. Se você possui parentes que tiveram Alzheimer, é possível que tenha mais chances de sofrer com ele. Mas, de maneira geral, os exercícios que estimulam o cérebro, como o Sudoku e a leitura, são medidas indicadas a todos, como forma de prevenção.

Existe uma previsão de que qualquer pessoa que chegue a viver 110 anos tem grandes chances de apresentar essa doença neurodegenerativa, palavras de Renato Mendonça, neurologista do Laboratório Exame em Brasília.


Por Vilhena Soares – Matéria publicada em 22 de Janeiro de 2017 no Correio Braziliense.