A língua ucraniana é hoje a língua oficial da Ucrânia, mas chegou até aqui depois de séculos de proibições. A linguista Larysa Masenko, do Instituto da Língua Ucraniana da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, listou dez pontos sobre a história do idioma. Nós reunimos aqui esses fatos sobre a língua ucraniana e acrescentamos um décimo primeiro, sobre a data que celebra o idioma.
1. O ucraniano surgiu entre os séculos VI e VII
Segundo Masenko, o ucraniano começou a se formar nos séculos VI e VII, quando o protoeslavo se fragmentou. Ela chama de protoucraniano o período que começa em meados do século IX. A partir do fim do século XIV, fala em ucraniano antigo.
Nem todos os linguistas dividem essas fases da mesma forma. George Shevelov, por exemplo, estende o protoucraniano até meados do século XI. De todo modo, na Rus’ de Kiev, as pessoas falavam variedades dialetais no dia a dia. Já a escrita literária usava sobretudo o eslavo eclesiástico. A Rus’ de Kiev também é a origem do alfabeto ucraniano.
2. Entre os séculos XIV e XVII, a língua escrita ganhou espaço
Nesse período, o ucraniano antigo escrito apareceu em documentos jurídicos e em textos religiosos. Também surgiu em obras de polêmica e de história. Além disso, passou a ser usado num território cada vez maior.
3. O Império Russo tentou assimilar a língua
A partir da segunda metade do século XVII, boa parte da Ucrânia passou para o Império Russo. As autoridades russas adotaram então uma dura política de assimilação. Em 1720, por exemplo, Pedro, o Grande, mandou tirar os traços do ucraniano dos livros religiosos impressos na Ucrânia.
Ao longo do século XVIII, o russo tomou o lugar do ucraniano antigo na administração. Segundo Masenko, só a língua falada continuou completa.
4. A “Eneida” marcou o início da língua literária moderna
Em 1798, as três primeiras partes da “Eneida”, de Ivan Kotliarevskyi, saíram em São Petersburgo, sem o conhecimento do autor. O poema é uma paródia da obra de Virgílio, em que os heróis troianos viram cossacos zaporojianos. Foi a primeira obra publicada inteiramente no ucraniano falado pelo povo.
Depois, Taras Shevchenko juntou a língua falada, o folclore e elementos do eslavo eclesiástico. Assim, ele consolidou o ucraniano literário moderno. Como as obras literárias usavam vários dialetos, elas ajudaram a formar uma língua comum, com um papel de união. O padrão atual se baseia nos dialetos do médio Dnipro.
5. O império proibiu o ucraniano mais de uma vez
A língua literária comum preocupou as autoridades russas, e as proibições vieram em seguida. Em 1863, a Circular de Valuev, do ministro do Interior Piotr Valuev, proibiu livros religiosos, didáticos e de alfabetização em ucraniano. Só a literatura de ficção continuou liberada.
A circular citava o comitê de censura de Kiev: uma língua “pequeno-russa” separada “nunca existiu, não existe e não pode existir”. Treze anos depois, em 1876, o Ukaz de Ems, do czar Alexandre II, foi mais longe. O decreto proibiu a impressão de textos em ucraniano, com exceção de documentos antigos. Também vetou a importação de livros em ucraniano, além de peças e palestras na língua.
Mesmo assim, as proibições não pararam o desenvolvimento do idioma. Na Galícia, então sob o domínio da Áustria-Hungria, os livros em ucraniano continuaram a ser publicados e a circular.
6. Nos anos 1920, a língua se desenvolveu rapidamente
Nas primeiras décadas do século XX, o ucraniano avançou depressa. Isso aconteceu na República Popular Ucraniana, de 1917 a 1921, e na ucranização promovida pelos bolcheviques nos anos 1920. Nessa época, novas instituições padronizaram a língua literária.
Em 1927, uma conferência de ortografia em Kharkiv preparou as regras de escrita. Em 6 de setembro de 1928, o comissário da educação Mykola Skrypnyk aprovou a nova ortografia, que por isso ganhou o apelido de skrypnykivka. Na mesma época, saíram vários dicionários de termos técnicos, e começou o estudo dos dialetos.
7. O regime soviético impôs a russificação
A partir dos anos 1930, a russificação forçada deformou o espaço linguístico da Ucrânia. Masenko aponta três fatores. Primeiro, o terror de Stalin reduziu a base social da língua, sobretudo com o Holodomor, a grande fome de 1932 e 1933.
Em segundo lugar, o regime reprimiu quase todos os linguistas ucranianos que tinham trabalhado nos anos 1920. Foi o mesmo destino de uma geração de artistas e intelectuais, mais tarde chamada de Renascença Executada. Em julho de 1933, com medo de ser preso, Skrypnyk se suicidou.
Por fim, uma suposta reforma aproximou artificialmente o ucraniano do russo. Em 1933, uma comissão declarou “nacionalistas” as regras de 1928 e reescreveu a ortografia. Nessa reforma, a letra ґ saiu do alfabeto. Além disso, o vocabulário próprio do ucraniano foi retirado dos dicionários ou jogado para as margens. O russo também dominou as escolas e a vida pública.
8. Nos anos 1960, surgiu uma resistência cultural
Nos anos 1960, o terror diminuiu, e a situação da língua e da cultura só então melhorou. Surgiu um movimento cultural para preservar o ucraniano e resistir à russificação. Os seus integrantes ficaram conhecidos como sessentistas.
Como de costume, o regime respondeu com violência. Entre 1965 e 1966, até 200 sessentistas foram presos. Novas prisões vieram no fim dos anos 1960 e nos anos 1970. A campanha contra o chamado “nacionalismo burguês ucraniano” durou até meados dos anos 1980.
9. A independência trouxe o desafio de superar essa herança
Em 28 de outubro de 1989, ainda na União Soviética, uma lei declarou o ucraniano a única língua oficial da república. Com a independência, em 1991, o novo Estado precisou superar a herança da assimilação e do comunismo. Segundo Masenko, porém, a Ucrânia continuou a dividir com a Rússia o mesmo espaço linguístico e cultural até 2014.
A Revolução da Dignidade, em 2014, acelerou o afastamento da influência russa. Em 2016, uma lei criou cotas de músicas em ucraniano no rádio: primeiro 25%, depois 30% e, dois anos mais tarde, 35%. A mesma lei exigiu que pelo menos 60% de programas como noticiários fossem em ucraniano. Em 25 de abril de 2019, o Parlamento aprovou uma lei que tornou o ucraniano obrigatório em mais de 30 áreas da vida pública. Depois da invasão em larga escala, em 24 de fevereiro de 2022, muitos ucranianos passaram a usar a língua do Estado também no dia a dia.
10. Nos territórios ocupados, o ucraniano é reprimido
Masenko descreve a política russa nos territórios ocupados como um genocídio linguístico. Em 6 de março de 2020, a autoproclamada República Popular de Donetsk mudou a sua “constituição” e deixou o russo como única língua oficial. Em 3 de junho de 2020, a de Luhansk fez o mesmo.
Segundo Masenko, professores de ucraniano foram obrigados a ensinar russo. Além disso, toda a literatura em ucraniano saiu das bibliotecas escolares. É por isso que a guerra também decide o futuro do idioma.
11. A Ucrânia dedica um dia à língua
Todo 27 de outubro, a Ucrânia comemora o Dia da Escrita e da Língua Ucraniana:
День украї́нської писе́мності та мо́ви [Den ukrainskoi pysemnosti ta movy]
Dia da Escrita e da Língua Ucraniana
A data foi criada por decreto do presidente Leonid Kuchma em 6 de novembro de 1997. Ela coincide com o dia de Nestor, o Cronista, no calendário da Igreja. Desde 2000, a Rádio Ucraniana transmite nesse dia o ditado da unidade nacional, e qualquer pessoa pode participar.
Fontes: UkraineWorld, Wikipedia, OSW, TASS e Embaixada da Ucrânia em Moçambique
