Aprender um novo idioma é sempre desafiador, especialmente quando ele usa uma escrita diferente da nossa. Mesmo assim, você vai concordar: aprender a escrita, no caso o alfabeto ucraniano, é um passo importante. Muitas vezes, é o primeiro passo.

Alguns idiomas eslavos como o russo, ucraniano e macedônio utilizam o alfabeto cirílico. Algumas de suas letras se parecem com as do alfabeto latino, mas outras são bem diferentes. Além disso, algumas línguas que usam o cirílico têm letras próprias, como é o caso do ucraniano.

Alfabeto ucraniano

O alfabeto ucraniano tem 33 letras, contando o sinal de abrandamento (ь). Apesar da semelhança com o alfabeto russo, ele tem letras que o russo não tem: і, ї, є e ґ. O і tem a mesma forma do “i” latino, mas vem do iota grego. Já o ґ representa o som /g/, como em “gato” ou “gota”. Por outro lado, o ucraniano não usa as letras russas ё, ъ, ы e э.

A última alteração no alfabeto ucraniano ocorreu em 1990, quando a letra ґ, retirada em 1933, voltou a fazer parte dele.

Origem e dialetos

O ucraniano é uma língua eslava oriental, como o russo e o bielorrusso. Muita gente o compara ao russo, mas ele se entende melhor com o bielorrusso. No vocabulário, por sua vez, está mais próximo do polonês e do búlgaro.

Russo e ucraniano se parecem muito porque têm a mesma origem: o eslavo oriental antigo, falado na Rus’ de Kiev. Essa língua é a ancestral comum do russo, do ucraniano e do bielorrusso. Hoje extinta, ela existiu do século VII ou VIII até os séculos XIII ou XIV. Depois, dividiu-se em russo e ruteno. Do ruteno vieram o bielorrusso, o rusino e o ucraniano.

Em algumas regiões da Ucrânia também se fala o surzhyk (су́ржик), mistura de ucraniano e russo. O nome vem de uma farinha feita com grãos misturados, como trigo e centeio. A quantidade de russo varia de lugar para lugar e é maior no leste e no sul do país.

O ucraniano padrão se baseia nos dialetos do médio Dnipro, no centro do país. Esses dialetos predominam sobretudo no sul e no leste da região de Kyiv. Os dialetos de Tcherkássi, Poltava e Kyiv também ficam próximos do padrão. Foi a partir desse grupo que Taras Shevchenko e Panteleimon Kulish desenvolveram a língua literária, em meados do século XIX.

Depois da década de 1860, o Império Russo proibiu o ucraniano em várias situações. Por isso, a maior parte das obras literárias em ucraniano passou a sair na Galícia, região de Lviv, então sob domínio austríaco. Nesse período, a língua literária incorporou influências da Galícia, principalmente no vocabulário de direito, governo, tecnologia, ciência e administração.

As letras do alfabeto ucraniano

De А a Л

А | а (a) – tem o mesmo som que o “a” em português, sempre será aberto;

Б | б (bé) – tem o mesmo som que o “b” em português;

В | в (vé) – tem o mesmo som que o “v”, porém às vezes funciona como semivogal com som de “u”;

Г | г (hé) – tem o som de um “h” sonoro, parecido com o “h” aspirado da palavra inglesa “horse” ou com o “rr” de “cachorro”;

Ґ | ґ (gué) – tem o som de “g” como “gue” e “gui”; aparece pouco, sobretudo em palavras de origem estrangeira, como ґа́нок (ganok, varanda, do polonês);

Д | д (dé) – tem mesmo som que o “d” em português;

Е | е (é) – tem o mesmo som que o “e” em português, porém sempre aberto;

Є | є (ié) – soa como na palavra inglesa “yes” ou na palavra portuguesa “piegas”;

Ж | ж (jé) – soa como o “g” na palavra “girafa”, ou como o “j” na palavra “jacaré”;

З | з (zé) – soa como o “z” em português;

И | и (ê) – soa como um “ê” bem fechado, puxado para o “i”, como nas palavras “você” e “verde”;

І | і (i) – soa como o “i” português;

Ї | ї (ií) – soa sempre como dois sons, um “i” semivogal seguido de “i”, como “yi”;

Й | й (iót) – tem som de “i” é uma semivogal, como na palavra “pai”;

К | к (ka) – tem som de “k” como na palavra portuguesa “cavalo”;

Л | л (él) – tem o mesmo som que o “l” português;

De М a Я

М | м (ém) – tem o mesmo som que o “m” português;

Н | н (én) – tem o mesmo som que o “n” português;

О | о (ó) – tem o mesmo som que o “o” português, porém sempre aberto;

П | п (pé) – tem o mesmo som que o “p” português;

Р | р (ér) – tem o mesmo som que o “r brando” português, como na palavra “ouro”, sempre alveolar, ou tremido.

С | с (és) – tem o mesmo som que o “ss” ou “ç” em português;

Т | т (té) – tem o mesmo som que o “t” português;

У | у (u) – tem o mesmo som que o “u” português;

Ф | ф (éf) – tem o mesmo som que o “f” português;

Х | х (khá) – tem o mesmo som que o “ch” alemão da palavra “Buch” ou o “j” espanhol de “José”;

Ц | ц (tsé) – tem som de “tsé” como no nome chinês “Mao Tsé-Tung”;

Ч | ч (tché) – tem o som de “tch” como na palavra “tchau” ou como os gaúchos dizem “tché”;

Ш | ш (chá) – tem som de “ch” ou “x” em português nas palavras “chaleira” “xícara”;

Щ | щ (chtchá) – tem som de “chtch”, algo como o “S” carioca unido ao “tch” da palavra “tchau”;

Ь | ь (m’yakyy znak) – é o sinal de abrandamento: não tem som próprio e amolece a consoante anterior, como em кінь (kin’, cavalo); нь e ль lembram o “nh” de “ninho” e o “lh” de “colher”;

Ю | ю (iú) – tem som de “iú” (ditongo) como na palavra “Iugoslávia”;

Я | я (iá) – tem som de “iá” (ditongo) como na palavra “iate” ou na palavra “alfaiate”.

Apóstrofo e dígrafos

Além das 33 letras, a escrita usa o apóstrofo (‘), que não conta como letra. Ele indica que a consoante anterior não amolece e que я, ю, є e ї soam com o “i” semivogal: м’я́со (miaso, carne) e ім’я́ (imia, nome). No russo, essa função é do sinal duro ъ, que não existe no ucraniano. As regras de quando se escreve o apóstrofo estão na ortografia do ucraniano.

Há também dois dígrafos que representam um som só: дж, com som de “dj”, como em бджола́ (bdzhola, abelha), e дз, com som de “dz”, como em дзво́ник (dzvonyk, sininho).

Curiosidades

O ucraniano usa o cirílico desde a época da Rus’ de Kiev. Ao longo da história, porém, houve várias propostas de escrevê-lo com o alfabeto latino, a chamada latynka (латинка). Nenhuma delas substituiu o cirílico.

Em 1834, o padre e estudioso Josyp Lozynskyi propôs escrever o ucraniano com um alfabeto latino baseado no polonês. Em 1835, publicou nesse alfabeto o livro Ruskoje wesile (“Casamento ruteno”). A ideia não teve aceitação ampla entre os intelectuais ucranianos.

Uma nova tentativa veio em 1859, na Galícia, então parte do Império Austríaco. O governador Agenor Gołuchowski apoiou um alfabeto latino baseado no tcheco, proposto pelo estudioso tcheco Josef Jireček. A disputa ganhou o nome de “guerra dos alfabetos”, e a proposta também acabou rejeitada.

Em 1927, houve uma conferência de ortografia em Kharkiv, então capital da Ucrânia soviética. Nela, os linguistas Maik Yohansen, Borys Tkachenko e Mykola Nakonechnyi propuseram adotar o alfabeto latino. A proposta perdeu por 25 votos a 20, e a ortografia aprovada em 1928 manteve o cirílico.

Hoje, o alfabeto latino aparece na transliteração oficial da Ucrânia, cuja versão atual é de 2010. Os passaportes e os nomes geográficos seguem essa transliteração. É por ela que o nome da capital se escreve Kyiv.

O bielorrusso também tem um alfabeto latino, a łacinka, que teve uso bem maior. Até a década de 1930, editoras imprimiam livros e jornais nele, ao lado do cirílico.


Fontes: MyLanguages, Wikipedia e Wiktionary

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