O ucraniano e o russo são distintos o suficiente para serem considerados idiomas separados. Mesmo assim, saber se o ucraniano é um idioma ou dialeto do russo depende, em parte, de como o conflito entre os dois países terminar.
Em 2022, após o início da guerra, o número de pessoas que estudam ucraniano no Duolingo aumentou mais de 500%. A maioria desses alunos provavelmente não sabe que há uma controvérsia de longa data sobre essa forma específica de fala.
Um lado vê russos e ucranianos como “um só povo”, e o lado oposto, não. Os primeiros afirmam que o ucraniano é apenas um dialeto do russo. Os outros argumentam que é uma língua separada. Quem está certo? Infelizmente, não há uma resposta clara. A diferença entre uma língua e um dialeto depende de quem você pergunta.
O ângulo linguístico
Para muitos linguistas, o que decide entre língua e dialeto é a compreensão mútua. Em termos simples, se duas pessoas estão falando dialetos diferentes da mesma língua, elas provavelmente podem se entender. No entanto, se duas pessoas estiverem falando idiomas separados, provavelmente não conseguirão se entender.
Por essa definição, o tcheco e o eslovaco poderiam ser dialetos da mesma língua. O mesmo vale para indonésio e malaio.
Algumas formas de fala parecem bem diferentes na escrita. Por exemplo, o sérvio usa uma variação do alfabeto cirílico, como o russo, e também o alfabeto latino. Já o croata usa só o alfabeto latino, como o inglês. Mesmo assim, muitos linguistas veem o sérvio e o croata como dialetos da mesma língua. Afinal, o que conta, em geral, é a compreensão da fala.
Os humanos falam há muito tempo, mas só escrevemos há alguns milênios. Além disso, das cerca de 7 mil línguas vivas conhecidas, apenas cerca de 4 mil têm um sistema de escrita.
A política diz algo diferente
Para cientistas políticos, o que separa uma língua de um dialeto é a política, e não a compreensão mútua. Por exemplo, híndi e urdu são línguas separadas porque os governos da Índia e do Paquistão dizem que são. No entanto, as duas variedades faladas no dia a dia são muito parecidas.
Max Weinreich, estudioso do iídiche, popularizou uma frase famosa: “uma língua é um dialeto com um exército e uma marinha”. Em outras palavras, um governo pode tratar um dialeto como língua separada. Isso vale mesmo que, em termos linguísticos, ele não seja.
A Moldávia, por exemplo, sustentou por muito tempo que o moldavo era uma língua separada. No entanto, ele é quase idêntico ao romeno. A Romênia se incomodou, mas o artigo 13 da Constituição da Moldávia definia o moldavo como língua oficial. Em 2013, porém, o Tribunal Constitucional mudou isso. Segundo a decisão, vale a Declaração de Independência, que chama a língua de romeno. Por fim, em 16 de março de 2023, o Parlamento aprovou uma lei que usa o nome “romeno” em todas as leis e na Constituição.
Dar status oficial a uma forma de fala incentiva seu uso no governo, inclusive nos tribunais. Além disso, em geral, essa forma passa a ser ensinada nas escolas. Assim, as gerações futuras compartilham um idioma comum, mesmo que ele tenha surgido por motivos nacionalistas.
Um dialeto com exército e marinha pode virar língua. Da mesma forma, uma língua com exército e marinha pode chamar outras línguas de meros dialetos.
O caso da China
O idioma oficial da República Popular da China é o chinês padrão. Muitas vezes, as pessoas o chamam apenas de “chinês” e, de forma controversa, também de mandarim. No entanto, essa não é a única forma de fala do país.
Em Hong Kong e nos arredores, por exemplo, muita gente fala cantonês, que costuma ser tratado como um dialeto do “chinês”. No entanto, o mandarim falado e o cantonês não são mutuamente compreensíveis. Assim, em termos linguísticos, as duas seriam línguas separadas, e não dialetos de uma única língua.
Há muito tempo, o governo chinês promove a unificação linguística para fortalecer o poder central contra o separatismo. A intenção é criar uma forma comum de comunicação no país. Ao mesmo tempo, busca reduzir as diferenças linguísticas e culturais entre as comunidades. Por isso, profissionais de televisão e rádio seguem regras rígidas de pronúncia do chinês padrão. Quem erra a pronúncia pode até levar multa.
Em toda a China, as escolas estão trocando as formas locais de fala pelo mandarim. Muitas dessas formas estão em declínio e algumas correm o risco de ser extintas. Tais esforços não significam necessariamente que esses tipos de fala não sejam “línguas reais” no sentido linguístico.
Mas politicamente, a diferença entre uma língua e um dialeto é o que a China diz que é. Isso aparece até no nível internacional. Muitas organizações, como as Nações Unidas, reconhecem como “chinês” a forma padronizada que o governo promove.
Resolvendo o conflito
E então, o ucraniano é um dialeto do russo ou um idioma separado? Linguisticamente, o ucraniano e o russo são tão diferentes quanto o francês e o português. O francês e o português vêm do latim, mas se afastaram tanto que o entendimento mútuo ficou difícil. Da mesma forma, o ucraniano e o russo têm um ancestral comum. Hoje, porém, são tão diferentes que há um forte argumento linguístico para considerá-los idiomas separados.
Politicamente, no entanto, se o ucraniano é um dialeto ou uma língua dependerá, em parte, de como a guerra terminará. Se a Ucrânia continuar independente e tratar o ucraniano como língua separada, ele será uma língua separada.
No entanto, a Rússia pode acabar controlando toda a Ucrânia e concluir o processo que começou em 2014, com a anexação da Crimeia. Nesse caso, poderia tratar o ucraniano como mero dialeto do russo. Assim, reforçaria a ideia de que a Ucrânia é apenas uma parte da Rússia.
Em suma, não está em risco só o território da Ucrânia. Também está em risco a independência de uma comunidade cultural única.
Fontes: The Conversation e Revista Galileu
