Uma das primeiras surpresas quando começamos a aprender inglês costuma ser a inexistência de gênero gramatical — os substantivos não são masculinos, nem femininos.

Ou seja, nossos artigos definidos “o” e “a” não têm masculino e feminino em inglês. “A casa” e “o carro”, por exemplo, são traduzidos com um único artigo: “the” — que também usamos no plural, já que o inglês também não faz diferença entre “os” e “as”.

Essa mesma ambiguidade entre os gêneros ocorre nos pronomes demonstrativos: em português, temos “este” e “esta”, “esse” e “essa” e “aquele” e “aquela”. Em inglês, os gêneros são neutros, com o uso das palavras “this” (este/esse), “that” (aquele) e — aqui, temos o plural — “these” e “those”.

Mas nem sempre foi assim. Historicamente, como em todos os idiomas indo-europeus, o inglês antigo, ou anglo-saxão, tinha substantivos masculinos, femininos e neutros, com seus artigos correspondentes.

Os adjetivos também faziam flexão de gênero e, como era um idioma com grande quantidade de declinações (mudanças nas terminações das palavras, conforme sua função dentro da frase), esse contraste acabava alterando a terminação dos substantivos e adjetivos.

Mas quando e como o inglês perdeu o gênero gramatical? Quais fatores influíram — sociais, linguísticos e fonológicos? Para responder a estas perguntas, é preciso voltar ao início do desenvolvimento do idioma.

A origem do inglês

O inglês descende de um grupo de dialetos germânicos que eram falados em regiões que vão do que hoje é o norte da Alemanha ao sul da atual Dinamarca, passando pelas Ilhas Frísias até o litoral da Holanda. Eram provavelmente dialetos diferentes, mas compreensíveis entre si.

Os jutos, anglos, saxões e frísios se estabeleceram em diferentes regiões da principal ilha britânica (onde fica hoje a Inglaterra) entre meados e o final do século 5°. Seus dialetos se fundiram no idioma inglês e, logo em seguida, esses povos ficaram conhecidos como os ingleses.

Como ocorre com a maioria dos idiomas, o ancestral do inglês teve contato com outras línguas. Primeiramente, os invasores encontraram povos que falavam diferentes dialetos celtas. Pouco a pouco, esses povos foram deslocados para o oeste da ilha, onde hoje fica o País de Gales e a Cornualha, que é o extremo sudoeste da Inglaterra.

Por um lado, poucas palavras do idioma celta nessa época eram originárias do inglês. Mas alguns especialistas acreditam que o fato de que muitos adultos celtas falassem inglês como segundo idioma tenha causado influência profunda na estrutura da língua inglesa.

Igualmente, nos séculos 9 e 10, houve uma grande migração dos vikings, que falavam a língua nórdica (ou escandinava) e se assentaram na região de Yorkshire, no norte da Inglaterra. A migração viking foi “um importante catalisador para mudanças no inglês”, segundo Robert McColl Millar, professor de linguística e de idioma escocês da Universidade de Aberdeen, na Escócia.

Millar diz que “o nórdico tem parentesco próximo com o inglês e [ambos] provavelmente foram, em parte, compreensíveis entre si naquela época, o que causou profundos efeitos”.

O inglês antigo — como seus ancestrais, os dialetos germânicos — e o nórdico tinham os mesmos gêneros gramaticais e também eram declinados, mas com algumas diferenças.

Muitas palavras compartilhavam a mesma raiz e eram parecidas, mas o mesmo substantivo podia ter gênero masculino em um idioma e feminino, ou neutro, em outro. Um dos muitos exemplos modernos deste fenômeno é a palavra “idioma” — feminino em alemão (“die Sprache”) e neutro em norueguês (“Sproke”).

Além disso, o idioma ancestral nórdico (como o norueguês moderno) não tem artigo definido antes do substantivo. Ele tem uma partícula definida — um sufixo, usado no final da palavra. Tudo isso alterava a declinação dos substantivos e adjetivos de acordo com a sua função em cada frase.

“Imagine Yorkshire no século IX”, propõe o professor Millar, referindo-se a uma conversa entre falantes do idioma anglo-saxão e do nórdico vivendo lado a lado. “Eles tentam procurar bases comuns. Como o que há em comum são as palavras e não as informações gramaticais, eles simplificam e racionalizam o sistema.”

Por isso, a conversa ocorria sem os artigos definidos. “A eliminação do gênero gramatical nivelava o terreno para que todos pudessem se entender”, diz o professor.

A diluição do artigo definido

Outros especialistas defendem que a questão não é de compreensão, mas de fonologia.

“Nós não nos desfazemos das coisas porque outras pessoas não nos entendem. Se alguém não entende, é problema deles”, afirma Aditi Lahiri, fonóloga e professora de Linguística da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

“O gênero gramatical é marcado com sons especiais. A fonologia mostra como os sons mudam conforme o contexto e como eles desaparecem em um contexto específico”, segundo Lahiri.

“Em alemão, por exemplo, o artigo definido tem três formas: ‘der’, ‘die’ e ‘das’ (masculino, feminino e neutro). ‘Der’ é pronunciado quase como ‘dea’ e, se a consoante final de ‘das‘ desaparecesse, seria realmente difícil diferenciar os três artigos”, explica a professora. “Muitos idiomas perdem a qualidade distintiva da vogal quando sua posição não é acentuada.”

“A falta de contraste sonoro neutraliza o contraste de gênero”, afirma Lahiri. “Se não houver marcas fonológicas que informem qual o gênero da palavra, o contraste desaparece. A única forma de conhecer o gênero de uma palavra neutralizada seria pela declinação do adjetivo, mas ele também foi neutralizado [em inglês].”

A professora indica que esta é uma questão de erosão gradual. Se o som não for suficientemente contrastante, ele vai se diluir. As gerações seguintes já não terão essa referência e, pouco a pouco, ele desaparece.

É muito difícil determinar quando foram estabelecidas essas mudanças, mas Millar suspeita que, na forma falada, os povos tenham se desfeito do contraste muito rapidamente nos diferentes dialetos, embora não todos ao mesmo tempo.

Texto ambíguo

Já no idioma escrito, o primeiro sinal existente do fenômeno surge no início do século X, com a coletânea inglesa dos famosos Evangelhos de Lindisfarne, um dos mais importantes manuscritos remanescentes da Inglaterra anglo-saxã.

“Em grande parte, [o manuscrito] está no que chamaríamos de inglês antigo clássico, mas também inclui dialeto nortúmbrio acrescentado pelo comentarista, um sacerdote chamado Aldred”, conta Millar. “Ele usa um artigo definido ‘incorretamente’ — um artigo definido feminino com um substantivo neutro.”

Este “erro” é algo que a população do sudoeste da Inglaterra, onde se falava o saxão ocidental, nunca cometeria.

Mas existe uma difusão gradual do uso não específico do gênero e surge uma ambiguidade crescente sobre qual era a forma correta, segundo Millar. Essa ambiguidade começa no norte, mais ou menos no século IX, e é gradualmente difundida em direção ao sul.

Resíduos do gênero gramatical

Após a conquista normanda, em 1066, o inglês sofreu mudanças significativas de pronúncia, ortografia, gramática e, principalmente, vocabulário, devido à monarquia francesa que se estabeleceu na Inglaterra por séculos. É o período do inglês médio.

Muitas palavras francesas foram incorporadas ao idioma e sobrevivem em inglês até hoje. Mas o gênero gramatical, mantido no francês, não voltou a ser praticado em inglês.

“O contato com outros idiomas tem seus limites”, segundo Lahiri. “A tendência é tomar emprestados principalmente substantivos, mas uma categoria gramatical é muito difícil. Seria alterado todo o sistema de classificação.”

Em inglês atual e nos dialetos modernos, encontram-se alguns resíduos do gênero gramatical, que atraem apenas o interesse dos linguistas. Mas existe, em algumas variantes, a tendência de marcar as palavras com algo talvez parecido com o gênero gramatical, como a tendência dos marinheiros de chamar seus barcos pelo feminino (“ela”).

Millar faz referência a um desenvolvimento específico dos dialetos das ilhas de Shetland e Orkney, no norte da Escócia. Neles, a maioria dos objetos inanimados tem gênero masculino ou feminino.

E há diferenças entre os dialetos. Em Orkney, por exemplo, fala-se “a ponte”; em Shetland, “o ponte”.

“Não sei se são reminiscências do gênero gramatical ou não, mas algo disso certamente sobrevive”, diz ele.

Neutralização do pronome

Uma distinção que permanece em inglês é a dos pronomes pessoais conforme o gênero, pelo menos no singular. Segundo Lahiri, isso ocorre porque a fonologia de “he/she” (ele/ela, pronomes do caso reto, usados como sujeito) e “him/her” (pronomes do caso oblíquo, usados como objeto) é muito diferente.

Mas, no plural, os pronomes (eles/elas) têm gênero neutro: “they” e “them”.

Nos últimos anos, o uso da palavra neutra “they” no singular, para designar pessoas não binárias, vem gerando ardentes discussões. Vários movimentos vêm tentando eliminar a distinção por gênero e estabelecer pronomes ou sufixos neutros, em inglês e em outros idiomas.

Existem idiomas que nunca tiveram este problema. O finlandês, por exemplo, nunca teve gênero gramatical, nem um pronome que diferenciasse o masculino do feminino. O sueco também usa o pronome não específico com muito sucesso, segundo Robert McColl Millar.

“O inglês não tem tanta adaptação, porque mantivemos as divisões sexuais naturais nos pronomes. Para nós, parece natural”, comenta ele, “mas acredito que irá acontecer, veremos isso em 20 ou 30 anos”.

Já a fonóloga Aditi Lahiri acredita que elementos de um idioma não devem ser eliminados por decreto. “Deveríamos eliminar a palavra ‘gênero’, pois a classificação não tem nada a ver com o gênero das coisas, é gramatical”, segundo ela.

A classificação das palavras era determinada conforme elas se referissem a algo animado ou inanimado. “Em vez de masculino, feminino e neutro, poderia se chamar a, b e c, o que seria mais fácil ou aceitável”, conclui ela.


Fonte: BBC

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