O ucraniano é um idioma eslavo oriental. Milhões de pessoas o falam, principalmente na Ucrânia, mas também em comunidades da diáspora ao redor do mundo. No Brasil, parte dos descendentes de imigrantes fala o ucraniano. Eles vivem sobretudo no Paraná e, em menor número, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. A imigração começou no final do século XIX: os primeiros registros são de 1891, e as grandes ondas vieram a partir de 1895. Até hoje, essas comunidades preservam tradições, incluindo a língua, na família, na igreja e na cultura.
Estima-se que entre 500 mil e 600 mil brasileiros tenham ascendência ucraniana. No entanto, o número de falantes fluentes é menor, porque muitos descendentes adotaram o português como língua principal. Nas colônias rurais do Paraná, porém, as pessoas ainda falam ucraniano em casa, na igreja e na comunidade. Além disso, a Igreja ucraniana celebra a maior parte das missas no idioma, o que ajudou a mantê-lo vivo. Em Prudentópolis, cerca de 75% da população tem ascendência ucraniana. Lá, uma lei municipal reconhece o ucraniano como língua cooficial.
O ucraniano no dia a dia das colônias
Entre 2003 e 2004, o antropólogo Paulo Guérios, da UFPR, fez pesquisa de campo em Prudentópolis. Segundo ele, muitos descendentes ainda usam o ucraniano entre si para falar de assuntos da família e da religião. Mesmo quem não domina a língua usa certas expressões no dia a dia. Uma delas junta felicidade e saúde. Serve para desejar bem-estar em festas e despedidas, e também para cumprimentar:
Ща́стя, здоро́в’я! [Shchastia, zdorovia!]
Felicidade e saúde!
No Natal, os descendentes também cantam as коля́дки (koliadky), canções religiosas levadas de casa em casa.
O contato com o português também deixou marcas. Em relatos escritos a partir dos anos 1930, surgem palavras como farêne (farinha), fazendéiriu (fazendeiros) e caróce (carroças), com terminações do ucraniano. O caminho inverso também existe: no português de parte dos descendentes, aparecem construções do ucraniano, como “eu vou na Prudentópolis”.
Os primeiros imigrantes, aliás, chamavam a si mesmos de rutenos. Vinham do Império Austro-Húngaro e eram católicos de rito oriental. Só depois de 1915 passaram a usar o nome ucranianos. A história desse nome está na origem da palavra “Ucrânia”.
O ucraniano nas escolas
O ensino do ucraniano sofreu com as políticas de nacionalização. No Paraná, o Código de Ensino de 1917 já obrigava as escolas particulares, inclusive as estrangeiras, a ensinar português. Em 4 de maio de 1938, no Estado Novo, um decreto federal fechou as escolas estrangeiras. Com isso, as escolas e os clubes literários ucranianos fecharam, e o ensino da língua ficou por conta das famílias. Para evitar confiscos, os livros das bibliotecas foram divididos entre os sócios.
As ordens religiosas, como os padres basilianos e as Irmãs Servas de Maria Imaculada, foram essenciais para manter a língua em Prudentópolis. Em 2018, escolas estaduais do município ofereciam ucraniano como curso optativo pelo CELEM, o Centro de Línguas Estrangeiras Modernas do Paraná.
Em 2017, pesquisadoras da Unicentro visitaram uma escola rural de Prudentópolis. Os alunos falavam ucraniano em casa e rezavam e faziam catequese na língua. No português, misturavam palavras ucranianas como estas:
ба́ба [baba]
avó
капу́ста [kapusta]
repolho
буря́к [buriak]
beterraba
петру́шка [petrushka]
salsinha
Mesmo assim, a maioria dizia entender os pais e os avós, mas responder em português.
O interesse pelo idioma também cresceu nos últimos anos. Em 2022, por exemplo, o Duolingo registrou um grande aumento no número de alunos de ucraniano, como contamos em o que você precisa saber sobre a língua ucraniana.
Fontes: Wikipedia, Sociedade e Cultura e Slovo