Na Itália, país de rica história linguística, a língua italiana incorpora um fenômeno presente em muitos idiomas: o uso de nacionalidades em expressões idiomáticas do cotidiano. Esse recurso, estudado pela fraseologia sob o nome de expressões etnonímicas, revela como percepções culturais e estereótipos históricos se sedimentam na língua ao longo dos séculos. Exploraremos algumas dessas expressões, revelando como o italiano incorpora aspectos culturais em seu discurso cotidiano e o que elas dizem sobre a visão que os italianos construíram de outros povos.

Lembre-se de que essas expressões podem ter significados e conotações distintas conforme o contexto cultural e social. É importante usá-las com consciência, especialmente em situações formais ou interculturais.

Andarsene all’inglese

A expressão andarsene all’inglese (“ir embora à inglesa”) significa sair de um local ou evento discretamente, sem se despedir dos anfitriões ou dos outros convidados.

Curiosamente, o mesmo comportamento recebe atribuições diferentes conforme o idioma: em italiano, a discreção é associada aos ingleses; em português e inglês, o mesmo hábito é chamado de “sair à francesa” ou French leave. A hipótese histórica mais difundida associa a versão em inglês ao costume social francês do século XVIII, sobretudo da nobreza, de deixar recepções sem se despedir formalmente do anfitrião, embora essa origem seja debatida entre os estudiosos.

Fare il portoghese

A expressão fare il portoghese (“fazer à portuguesa”) descreve a ação de entrar em eventos, cinemas, teatros, concertos ou transporte público sem pagar. É comparável ao português “entrar de penetra”.

Segundo a hipótese mais citada pela Treccani, a expressão remonta a um episódio pontual do século XVIII: a embaixada de Portugal em Roma organizou uma récita no Teatro Argentina para comemorar uma ocasião especial, com entrada gratuita para quem se apresentasse como “português”, o que teria gerado a associação com “não pagar”. Vale notar que essa etimologia, embora amplamente citada, permanece no campo das hipóteses.

Parlare arabo / parlare cinese

As expressões parlare arabo e parlare cinese (“falar árabe” / “falar chinês”) descrevem uma situação em que alguém fala de maneira incompreensível ou difícil de entender, equivalentes ao português “você está falando grego”.

Esse fenômeno é universal: em inglês, a mesma ideia é expressa por “it’s all Greek to me”, frase que aparece já em Shakespeare (Júlio César, ato I, cena II, 1599). O idioma escolhido como símbolo de incompreensibilidade varia conforme a língua materna do falante e sua distância percebida em relação ao idioma estrangeiro em questão.

Fumare come un turco

A expressão fumare come un turco (“fumar como um turco”) descreve alguém que fuma muito ou com frequência.

A expressão tem base histórica concreta: o consumo de tabaco, especialmente através do narguilé, ficou profundamente enraizado na cultura otomana já a partir do século XVII, e o Império Otomano se consolidou como um dos maiores produtores mundiais de tabaco a partir do século XIX (antes disso, o tabaco era majoritariamente importado da Pérsia e do Egito). Esse contexto histórico explica por que o estereótipo se consolidou em diversas línguas europeias.

Bere alla tedesca

A expressão bere alla tedesca (“beber à moda alemã”) descreve alguém que consome grandes quantidades de álcool. Ela faz alusão à forte cultura cervejeira alemã, consolidada ao longo dos séculos e expressa em tradições como o Oktoberfest.

Em português, expressões análogas incluem “beber como um alemão” ou “beber como um cosaco”, esta última com conotações distintas, ligadas à vodca e à cultura eslava, e não diretamente equivalente à expressão italiana.

Essere un francese

A expressão essere un francese (“ser um francês”) é usada para descrever alguém elegante ou sofisticado, com atenção ao vestuário, bons modos e apreço pelas artes.

Essa percepção está ligada à projeção internacional da França, e de Paris em particular, como centro de moda, gastronomia e cultura desde o século XVII. Vale lembrar que o francês foi, por séculos, a lingua franca das cortes europeias e da diplomacia, o que reforçou o estereótipo de refinamento associado à cultura francesa.

Fare l’olandese

A expressão fare l’olandese (“fazer à holandesa”) significa dividir a conta de um jantar ou despesas igualmente entre os participantes, equivalente ao português “rachar a conta”.

O mesmo estereótipo sobre a parcimônia holandesa aparece em inglês como going Dutch ou Dutch treat. Dezenas de termos pejorativos com “Dutch” surgiram no inglês britânico nos séculos XVII e XVIII por causa da rivalidade comercial e política entre Inglaterra e Holanda, mas a expressão “going Dutch”/”Dutch treat” no sentido específico de dividir a conta é, na verdade, uma criação americana do século XIX (primeira atestação em 1873), não diretamente daquela rivalidade britânica setecentista.

Lavorare come un cinese

A expressão lavorare come un cinese (“trabalhar como um chinês”) refere-se a trabalhar de forma muito intensa ou por longas horas, baseando-se na percepção de que os trabalhadores chineses são extremamente diligentes.

Em português, a expressão mais próxima seria “trabalhar feito uma formiga”, que transmite dedicação e esforço coletivo sem a carga etnonímica. Vale notar que expressões como essa são exemplos de como estereótipos culturais se incorporam à linguagem cotidiana; seu uso deve ser feito com consciência do contexto.

Essere un vero inglese

A expressão essere un vero inglese (“ser um verdadeiro inglês”) descreve alguém que exibe características estereotipadas associadas aos britânicos: o famoso flegma britannico (compostura e autocontrole em situações difíceis), pontualidade, cortesia e respeito rigoroso às normas sociais.

Esse estereótipo tem raízes no ideal vitoriano de conduta pública, difundido internacionalmente pela influência do Império Britânico no século XIX.

Mangiare come un giapponese

A expressão mangiare come un giapponese (“comer como um japonês”) descreve alguém que se alimenta de forma saudável, equilibrada e em porções moderadas, refletindo a percepção internacional da dieta japonesa.

A culinária japonesa é reconhecida mundialmente por seu valor nutritivo, com alta ingestão de peixes, vegetais, arroz e alimentos minimamente processados, e pelo conceito de hara hachi bu, que orienta comer até estar 80% satisfeito. Essa expressão costuma ser usada de forma elogiosa.

Correre come un keniota

A expressão correre come un keniota (“correr como um queniano”) refere-se à habilidade de correr com excepcional velocidade e resistência, em alusão à extraordinária tradição esportiva do Quênia em corridas de longa distância.

O Quênia é, historicamente, uma das nações mais dominantes no atletismo de fundo: entre 1968 e 2024, atletas quenianos conquistaram dezenas de medalhas olímpicas e títulos mundiais em provas de 800 m, 1500 m, 3000 m com obstáculos e maratona. Essa expressão é usada de forma elogiosa e admirativa.

Inglese maccheronico

A expressão inglese maccheronico (“inglês macarrônico”) refere-se a um inglês falado de forma muito incorreta ou rudimentar, com forte interferência da língua materna do falante.

O adjetivo “macarrônico” vem da tradição literária da poesia maccheronica, popularizada pelo escritor italiano Teofilo Folengo no século XVI em sua obra-prima Baldus (parte do conjunto conhecido como Maccheronee), uma mistura humorística e satírica do latim com a língua vernácula. Com o tempo, o termo passou a designar qualquer mistura jocosa de línguas, e hoje é usado para descrever uma fala “embrulhada”, difícil de compreender por falantes nativos.


Fontes: Enciclopédia Treccani

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