Uma lenda muito popular sobre a origem da cachaça conta que, nos engenhos coloniais, escravizados cozinhavam o caldo de cana-de-açúcar em um tacho para fazer melado, mexendo sem parar. Um dia, cansados, teriam parado de mexer, e o melado “desandou”. Escondido do feitor, o melado azedou e fermentou; ao ser misturado com um novo lote e levado ao fogo, o álcool ali formado teria evaporado e voltado a pingar do teto do engenho – dando origem ao nome “pinga”. A lenda ainda associa o nome “água-ardente” ao ardor que a bebida causava sobre as costas marcadas por chibatadas.
Uma lenda desmentida por especialistas
Apesar de muito repetida, essa história é tratada por pesquisadores e especialistas em cachaça como uma lenda sem base histórica, não como fato documentado. Entre as inconsistências apontadas: vapor de álcool não condensa e pinga de um teto sem um sistema de destilação (alambique) adequado, e a aguardente arde ao ser ingerida, na garganta, e não ao entrar em contato com feridas na pele.
De onde vêm os nomes, então?
A etimologia de “cachaça” mais aceita entre pesquisadores – embora ainda debatida – liga a palavra a “cagaça”, a espuma retirada da fervura do caldo de cana durante a fabricação do açúcar, que era descartada, fermentava e, destilada, dava origem à bebida.
Já “água-ardente” não é um termo exclusivo da cachaça nem foi cunhado no Brasil: vem do latim aqua ardens, “água ardente”, da mesma raiz do espanhol aguardiente, do francês eau-de-vie e do italiano acquavite – todos termos genéricos usados há séculos, em várias línguas, para designar destilados de alta graduação, sejam de uva, cana ou cereais.
Quanto a “pinga”, a etimologia documentada vem do latim pendicare (“pingar”, “pender”), numa referência à gota que escorre lentamente do alambique de cobre durante o processo normal de destilação – e não de um acidente no teto do engenho.
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