Os francófonos têm um papel fundamental no futuro do Canadá, inclusive na luta pela preservação das línguas e culturas indígenas.

Em 1969, a Lei das Línguas Oficiais fez do francês e do inglês as línguas oficiais do Canadá. Embora isso tenha sido amplamente bem-sucedido, 50 anos depois ainda há desafios e oportunidades para a cultura francesa no Canadá.

Para marcar o 50º aniversário da “Lei das Línguas Oficiais” e, também, o Dia Internacional da Francofonia (20 de março), um caucus aberto no Senado do Canadá refletiu sobre o lugar do francês no país.

Os professores Stéphanie Chouinard, Michael MacMillan e Benoît Pelletier abordaram a seguinte questão: Qual é o lugar do francês no Canadá 50 anos após a promulgação da Lei de Línguas Oficiais?

A boa notícia é que, desde que a Lei foi promulgada, a presença da língua francesa dentro do governo federal tornou-se consideravelmente muito mais forte.

O governo federal canadense aprovou a Lei das Línguas Oficiais em 1969 para corrigir uma injustiça histórica que se manifestou parcialmente na quase total ausência de francófonos dentro do serviço público federal.

A esse respeito, a Lei foi um sucesso notável: hoje em dia, mais de 43% dos cargos do serviço público são designados bilíngues, e mais de 96% dos funcionários nesses cargos alcançaram a proficiência exigida, segundo um relatório de 2017 de Patrick Borbey, da Comissão do Serviço Público, e Matthew Mendelsohn, do Conselho Privado.

Mas nem tudo são flores…

Francófonos ainda enfrentam desafios

Apesar das mudanças positivas em todo o serviço público nos últimos 50 anos, o Comissário de Línguas Oficiais ainda recebe um número significativo de reclamações a cada ano sobre o direito de trabalhar em seu idioma, a designação linguística de certos cargos e a participação igualitária de anglófonos e francófonos no governo.

Em 2018, o Comissário recebeu 376 reclamações admissíveis sobre essas questões. O relatório Mendelsohn-Borbey aponta que 23% dos francófonos no serviço público federal não se sentem à vontade para falar a língua oficial de sua escolha nas reuniões em sua unidade de trabalho e que 32% não se sentem à vontade para escrever e-mails na língua oficial de sua escolha.

Esses desafios enfrentados pelos servidores públicos francófonos refletem a experiência dos francófonos em todo o país. Apesar da condição oficial do francês e do apoio da maior parte da população (88%), o francês ainda é visto por alguns como pertencendo a uma minoria do passado. Essa percepção diminui significativamente o lugar do francês no Canadá.

“Nos últimos 50 anos, o bilinguismo e a dualidade linguística só progrediram quando os cidadãos pressionaram os vários níveis de governo para tratar nossas línguas oficiais com respeito”, afirmam os senadores Raymonde Gagné e René Cormier.

No entanto, o francês é uma língua vibrante, moderna e criativa que continua a ser um pilar da identidade canadense. O francês não é a língua de um único grupo cultural; é uma língua compartilhada e um modo de vida de várias comunidades étnicas e culturais em todo o Canadá.

Assim como o inglês, o francês é uma língua internacional falada nos cinco continentes e que ajuda o Canadá a receber pessoas de todas as partes do mundo. É por isso que essa noção de que o francês pertence a um único grupo cultural deve ser dissipada.

Todos os canadenses precisam entender que o francês é também um veículo poderoso para o multiculturalismo canadense.

Um papel no futuro do Canadá

Embora o francês tenha uma forte base histórica e constitucional no Canadá, também tem um papel importante no futuro do país. Ao promover o francês em todo o país, o Canadá pode se posicionar internacionalmente como um vasto país capaz de acolher famílias de imigrantes diversas que têm o francês em comum.

Não podemos fortalecer a posição do francês no Canadá sem considerar o debate no Parlamento sobre o Projeto de Lei C-91, Lei Relativa às Línguas Indígenas. Como se viu com a Lei das Línguas Oficiais, o avanço do francês, possibilitado pela Parte VII da lei, desempenhou um papel importante na preservação e no aumento da vitalidade do francês em várias partes do Canadá.

E como minoria linguística, francófonos devem se unir nessa luta para preservar também as línguas e culturas indígenas, inclusive as dos métis e dos inuítes.

Em um editorial publicado em 18 de abril de 2019, o presidente da Federação das Comunidades Francófonas e Acadiana do Canadá, Jean Johnson, convocou os francófonos a se posicionarem sobre o assunto.

Como apontou: “O apoio dos povos indígenas é uma das principais razões pelas quais as comunidades francófonas conseguiram se firmar no Canadá há quatro séculos. Hoje, no espírito de reconciliação, devemos nos levantar e apoiá-los”.

Assim, o governo federal precisa reconhecer e ajudar a revitalizar as línguas indígenas.

Olhando para o futuro, devemos lembrar que, nos últimos 50 anos, o bilinguismo e a dualidade linguística só progrediram quando os cidadãos pressionaram os vários níveis de governo para tratarem nossas línguas oficiais com respeito.

Atualização: o Projeto de Lei C-91 foi sancionado em 21 de junho de 2019 como Lei sobre as Línguas Indígenas. Em 20 de junho de 2023, a Lei das Línguas Oficiais foi modernizada pela Lei C-13.


Fonte: Raymonde Gagné e René Cormier, After 50 years of the Official Languages Act, what is the place of French in Canada?, CBC (em inglês)

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