Que o italiano é o idioma oficial da Itália, você certamente já sabe. Mas essa não é a única língua falada no país. Lá, muitas regiões, cidades e até vilarejos têm sua própria maneira de se comunicar, usando dialetos. Apesar de ser difícil produzir uma estimativa da quantidade de idiomas que existem no território italiano, o Instituto Nacional de Estatística (Istat) estima em pelo menos 11 mil o número de dialetos no país.

O italiano é o quarto idioma mais estudado no mundo, segundo um estudo recente da organização de linguística SIL Internacional, mas por que tantos dialetos ainda sobrevivem no país da bota? “O dialeto ainda é a língua da afetividade, falada com as pessoas mais próximas, amigos e parentes, em situações de informalidade. O italiano e o dialeto coexistem, cada um com suas funções sociais reconhecidas pelos falantes, que conseguem escolher entre um e outro sistema linguístico de acordo com o ambiente e a situação”, explicou à ANSA Cristiana Gotsis, professora do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro.

Segundo a docente de italiano, “esse uso alternado, muitas vezes até mesmo dentro da mesma frase, faz com que os dialetos consigam sobreviver”. Os dialetos permaneceram comuns entre as pessoas até a década de 1950. Com o crescimento progressivo da alfabetização, o italiano padrão se tornou o idioma nacional. No entanto, muitos cidadãos, principalmente de baixa renda e menor grau de escolaridade, continuaram usando seus próprios dialetos no dia a dia.

Nesse período, surgiu uma certa marginalização do uso dos dialetos, vistos como sinal de baixo nível cultural e social, mas essa tendência diminuiu. “Isso não significa que ainda não exista um certo preconceito com quem faça um uso exclusivo do dialeto, mas vivemos um momento de reapropriação da ‘cultura dialetal’, seja por parte de cultores de um determinado dialeto, com a criação de páginas online, por exemplo, seja na comunicação mainstream”, acrescentou Gotsis.

Segundo a professora, “o dialeto é usado na produção cinematográfica, na publicidade, nas placas de lojas e na comunicação online”. “Nas mídias sociais, por exemplo, é usado para reforçar o sentido irônico de uma frase”, disse.

Uma das séries de maior sucesso na Itália recentemente, “Gomorra”, inspirada no livro homônimo do jornalista italiano Roberto Saviano, que narra os bastidores da máfia Camorra, trouxe à tona o dialeto napolitano.

“O sucesso da plataforma Netflix com certeza pode contribuir a estimular um maior interesse pelos dialetos italianos, mas é importante lembrar que eles nunca perderam a importância, sobretudo no sul da Itália, onde ainda hoje constituem a língua usada nas relações informais”, ressaltou a diretora do Instituto Italiano de Cultura do Rio, Livia Raponi, à ANSA. Para ela, o napolitano é o dialeto mais falado e aprendido, inclusive no Brasil, devido ao sucesso de autores e músicos de Nápoles no cenário internacional. Outros que se destacam são o milanês, o vêneto, o romanesco e o siciliano. “Na história da dialetologia, foram usadas várias formas de classificação dos dialetos italianos. Além das pequenas diferenças locais, podemos classificá-los em quatro grandes famílias: os dialetos do norte; os toscanos; os do centro e os do sul”, afirmou Gotsis.

Conforme dados do Istat relativos a 2015, último ano com números disponíveis, 32,2% da população fala dialetos misturados ao italiano em família e com os amigos. Esse uso é influenciado pelo nível de instrução e pela área geográfica. Com isso, as regiões onde se fala mais dialetos são o sul e as ilhas da Sardenha e Sicília, com índices socioeconômicos piores que os do norte; e o nordeste, sendo que o Vêneto é a região com maior difusão.

“Embora há quem ache que os dialetos sejam um italiano não correto, eles são idiomas regionais e, em alguns casos, como o napolitano, alcançaram dignidade literária, graças a escritores e artistas que criaram obras hoje conhecidas no mundo inteiro”, defendeu Raponi.

Dialeto italiano no Brasil

No Brasil, descendentes de imigrantes italianos conseguiram fazer o dialeto talian ser considerado uma referência cultural brasileira pelo Ministério da Cultura.

Com origens do norte da Itália, o dialeto é conhecido como o “vêneto brasileiro”. Porém, aqui ele representa uma mistura de vários dialetos italianos das regiões de Vêneto, Toscana, Lombardia, Trentino Alto-Ádige, entre outras. “Com certeza os mais velhos, detentores das tradições, são os que mais falam em dialeto. O uso do dialeto reforça a cultura local e os costumes. Já os mais jovens, uma vez na escola, vão lentamente abandonando o uso e mantendo um conhecimento passivo: conseguem entender, mas dificilmente continuam falando”, observou Gotsis.

A especialista ainda lembrou que em Serafina Corrêa, no Rio Grande do Sul, o “talian” é idioma co-oficial, conforme lei municipal em vigor desde 2009. “Esses movimentos de preservação podem, sim, ajudar a manter a vitalidade dos dialetos também nas novas gerações”, finalizou.

Mapa das Línguas da Itália

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