A língua italiana guarda um segredo que poucos imaginam: entre seus verbetes, centenas de palavras têm origem árabe. Não são exceções exóticas ou termos técnicos esquecidos, são palavras do cotidiano, usadas a cada conversa, a cada refeição, a cada tarde no sofá.
Como chegaram até ali? Por conquistas, por comércio, por ciência e por contato humano acumulado ao longo de séculos. A história desses arabismos é, em boa medida, a própria história da Itália.
Uma relação de séculos
O patrimônio lexical italiano é constituído de aproximadamente 70% de termos de origem latina e pouco mais de 5% de origem grega. Entre as línguas vivas, o francês lidera com cerca de 10%. Mas quando os etimologistas chegavam a uma palavra que não era de origem greco-latina, pensavam antes de tudo no árabe, que, especialmente no período medieval, deu às línguas românicas, incluindo o italiano, palavras importantíssimas.
A influência árabe sobre o italiano se explica por pelo menos três rotas principais: os territórios que estiveram sob domínio direto dos árabes, como a Sicília e partes da Península Ibérica; as rotas comerciais marítimas e terrestres, especialmente aquelas que tinham como destino as cidades marinhas; e as universidades e centros de cultura onde se traduziam e divulgavam conhecimentos técnico-científicos e filosóficos.
É necessário distinguir dois grandes filões de arabismos: o científico, composto por termos que entraram no italiano por via escrita, através de traduções latinas do árabe; e o popular, formado por arabismos diretos, fruto sobretudo do contato entre cristãos e o mundo árabe por meio das Cruzadas e das relações comerciais das repúblicas marinhas com o Magreb e o Oriente.
As 11 palavras e o que está por trás delas
Caffè
O símbolo máximo da cultura italiana tem nome árabe. A palavra caffè chegou ao italiano pelo turco kahve, que por sua vez deriva do árabe qahwa. Os lexicógrafos divergem sobre a etimologia exata: uma corrente defende que vem de qahiya, que significa “falta de apetite”, o café é uma substância anoressizante, enquanto outra aponta para quwwa, “força” ou “potência”, pelos efeitos revigorantes da bebida. O porto iemenita de Mokha foi um centro de comércio fundamental, de onde o café árabe partiu para conquistar o mundo, e é por isso que a cafeteira se chama moka.
Zucchero
O açúcar entrou na Europa graças aos árabes, que o introduziram na Sicília e na Andaluzia. O italiano zucchero vem de sukkar, a mesma raiz que originou o inglês sugar, o francês sucre e o português açúcar. A presença árabe na Sicília, entre os séculos IX e XI, foi decisiva para que frutas, técnicas agrícolas e palavras como esta se incorporassem ao vocabulário local e depois ao italiano padrão.
Tazza
O recipiente para o café também é árabe. A palavra tazza deriva de ṭāsa, que significava “tigela” ou “recipiente arredondado”. É um arabismo direto, provavelmente introduzido pelas trocas comerciais entre as repúblicas marinhas italianas e o mundo islâmico durante a Idade Média.
Azzurro
A cor da famosa camisa da seleção italiana vem do perso-árabe lāzaward, que designava o lápis-lazúli e a cor azul. Durante o domínio árabe na Sicília, os árabes introduziram novas palavras que moldaram a paisagem cultural italiana. O mesmo étimo deu origem ao francês azur, ao espanhol azul e ao inglês azure. A pedra lápis-lazúli, extraída no atual Afeganistão, era um pigmento precioso na pintura medieval, daí a associação da palavra com a cor.
Ragazzo
A palavra ragazzo, que hoje significa “jovem” ou “garoto”, vem do árabe magrebino raqqāṣ, que designava uma “estafeta” ou “correio”. Documentos venezianos, pisanos e genoveses indicam que, originalmente, o termo se referia a um mensageiro ou assistente da alfândega, antes de adquirir o sentido atual. Um exemplo perfeito de como o comércio medieval criava novos vocabulários.
Alcol
Entre as palavras árabes, alcol tem a etimologia mais surpreendente: deriva do árabe kuḥl, um pó fino que, misturado com água, era usado no Oriente para tingir sobrancelhas, cílios e pálpebras, o mesmo que conhecemos hoje como kajal. Os alquimistas europeus estenderam o uso da palavra para designar qualquer substância impalpável. O verdadeiro responsável pelo sentido moderno foi o médico e alquimista Teofrasto Paracelso, que associou o termo ao espírito do vinho, a parte mais nobre da bebida.
Magazzino
A palavra italiana para armazém vem do árabe maḵāzin, plural de maḵzan, que significa “depósito” ou “estoque”. O mesmo étimo deu origem à palavra inglesa e francesa magazine, que inicialmente significava “depósito de informações” antes de designar uma publicação periódica. Um arabismo que viajou por vários idiomas com significados distintos.
Albicocca
O nome do damasco em italiano vem do árabe al-barqūq, que na origem significava “ameixa”. A fruta chegou à Europa pelo Oriente Médio, e seu nome árabe, com o artigo al- incorporado, fixou-se no italiano. O fenômeno da aglutinação do artigo árabe al- é uma das marcas mais reconhecíveis dos arabismos nas línguas românicas: albicocca, arancio, alcol, algebra, todas carregam o artigo árabe fundido à palavra.
Giubbotto
A jaqueta italiana giubbotto deriva de giubba, forma antiga influenciada pelo árabe jubba, uma túnica tradicional masculina de tecido. A via de entrada desse tipo de arabismo foi principalmente o contato comercial entre as repúblicas marinhas italianas e o mundo islâmico, que introduziu tanto produtos quanto seus nomes.
Divano
A palavra divano vem do árabe dīwān porque, antigamente, o divã era o único mobiliário da alfândega, o lugar onde os escribas do Império Otomano trabalhavam sentados em almofadas. Não por acaso, a palavra dogana (alfândega em italiano) tem a mesma origem árabe. De sala de trabalho burocrático a símbolo de conforto doméstico: poucas palavras fizeram uma viagem semântica tão curiosa.
Meschino
O adjetivo meschino tem origem no árabe miskīn, que significa “pobre”. Na Divina Comédia, Dante já o utiliza com esse sentido, o que comprova que o arabismo estava bem integrado ao italiano literário desde o século XIV. Com o tempo, o sentido evoluiu de “pobre” para “mesquinho”, alguém não apenas sem recursos, mas de espírito pequeno. Uma evolução semântica que diz muito sobre como a língua reflete mudanças culturais.
O arabismo que une tudo: a letra A
Uma frase italiana aparentemente banal revela a profundidade da influência árabe: “A nave era in avaria. L’ammiraglio uscendo dall’arsenale si lamentò degli acciacchi. Giunto a casa si buttò sull’alcova azzurra mangiando arance e albicocche con un po’ di alcool.” Todas as nove palavras começadas com A vêm do árabe. E com a letra C: caffè, caraffa, cassata, canditi, casseruola, carciofi, também todas de origem árabe.
Fontes e referências: Treccani, Corsi di Arabo, Geopop, Ultima Voce, Schweickard, W. — Italian and Arabic, De Mauro, T. & Mancini, M. — Parole straniere nella lingua italiana, Garzanti, 2001, Zolli, P. — Le parole straniere, Zanichelli, 1991.
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